terça-feira, 14 de abril de 2009

Páscoa - Jesus é o Senhor!

Liturgia
Dom Pedro José Conti

A solenidade da Páscoa é a maior festa dos cristãos. Nestes dias lembramos a paixão, a morte na cruz e a ressurreição de Jesus. Fatos relatados nos Evangelhos e sempre lembrados pelos discípulos e seguidores dele em qualquer época ou cultura se encontrem. Também os mais distraídos ou superatarefados param um pouco na Sexta-feira da Paixão. Todos os que, de uma forma ou de outra, ouviram falar de Jesus percebem o respeito que devemos à sua morte, e a absoluta novidade que representa a fé na sua ressurreição.
Contudo poderíamos pensar que se passaram tantos anos, com tantas novidades por aí, por que nos lembrarmos disso ainda? É que se os cristãos parassem de zelar pela memória do Senhor, logo deixariam de ser os tais. Com efeito, como nos lembrou a Conferência de Aparecida: Jesus não convidou os discípulos a seguir uma doutrina, a se vincular a algo de transcendente, ou a obedecer a uma lei. Ele os chamou a segui-lo mais de perto, a seguir a ele mesmo como pessoa. É verdade que os anos passaram, mas os verdadeiros seguidores de Jesus devem continuar a buscá-lo, para reconhecê-lo, entendê-lo e segui-lo, hoje e sempre, na liberdade da fé e do amor.
A Páscoa que celebramos, portanto, não é a comemoração de histórias do passado, mais ou menos bem contadas, ou dramatizadas. Ao contrário, é a possibilidade que nos é oferecida de participar do grande evento que chamamos de redenção, dos seus frutos e das suas conseqüências.
Dizendo com outras palavras. Jesus está vivo, ressuscitado, e continua a nos chamar a segui-lo. Ser cristão, para muitos, pode ser uma simples formalidade ou um acessório de sua existência humana, mais ligado às circunstâncias, como ter nascido num país e numa família cristã e católica, por exemplo, sem alguma conseqüência prática ou moral. Para que as coisas não fiquem na superfície, e para nos tornarmos cristãos mais sérios e amorosos, cada um de nós precisa refazer o caminho e a experiência dos primeiros discípulos e dos cristãos de todos os tempos.
A fé cristã se resume em três afirmações: Jesus morreu, Jesus ressuscitou, Jesus é o Senhor! De novo precisamos entender o sentido daquela morte na cruz, o abismo de mal, violência e injustiça no qual o Cristo mergulhou. Nós também continuamos a gritar: “Crucifica-o!”, nós também lavamos as nossas mãos, cuspimos no rosto dele e zombamos do seu fracasso. Devemos entender, dirigidas a nós, as palavras de Pedro no dia de Pentecostes: “Vós matastes Jesus de Nazaré!”.
Da mesma forma precisamos fazer a experiência do maravilhamento das mulheres e dos apóstolos quando chegaram ao sepulcro e o encontraram vazio. Passamos pela incerteza da busca até que o Ressuscitado nos chame pelo nome como fez com Madalena, e nós possamos também reconhecê-lo, ajoelhando-nos aos seus pés.
Não tem outro caminho para chegar à confissão da fé: Jesus é o Senhor! Nenhuma das etapas pode ser omitida. Ninguém chega a seguir o Mestre de verdade passando por atalhos. Foi o que Jesus explicou aos discípulos de Emaus, mostrando-lhes a necessidade que o Cristo sofresse para entrar na sua glória. Os dias da Páscoa são para todos nós a oportunidade para avaliar se podemos ou não dizer que Jesus é o nosso Senhor; se o estamos seguindo com alegria e confiança, buscando sempre a sinceridade nas nossas palavras e ações. Se deixamos, ou não, que o seu exemplo de amor nos conduza pelos caminhos da generosidade, do serviço, do perdão e da paz. É possível experimentar tudo isso ainda hoje, na comunidade, na liturgia, na fraternidade, no sorriso e no testemunho de vida dos que podem dizer novamente como os apóstolos: “Vimos o Senhor!”. É a alegria da Páscoa. Não tem alegria maior.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - por CNBB

O discernimento na vida pessoal

Espiritualidade

Vamos à guia do Espírito no caminho espiritual de cada crente. Situa-se sob o nome de discernimento de espíritos. O primeiro e fundamental discernimento de espíritos é o que permite distinguir «o Espírito de Deus» do «espírito do mundo» (cf. 1 Co 2, 12). São Paulo dá um critério objetivo de discernimento, o mesmo que havia dado Jesus: o dos frutos. As «obras da carne» revelam que certo desejo vem do homem velho, pecaminoso; «os frutos do Espírito» revelam que vem do Espírito (cf. Gál 5, 19-22). «A carne, de fato, tem desejos contrários ao Espírito e o Espírito tem desejos contrários à carne» (Gál 5, 17). Contudo, às vezes este critério objetivo não basta, porque a eleição não é entre o bem e o mal, mas entre um bem e outro bem, e se trata de ver o que é que Deus quer em uma circunstância precisa. Sobretudo para responder a esta exigência, Santo Inácio de Loyola desenvolveu sua doutrina sobre o discernimento. Convida a olhar sobretudo uma coisa: as próprias disposições interiores, as intenções (o «espírito») que estão detrás de uma escolha. Santo Inácio sugeriu os meios práticos para aplicar estes critérios. Um é o seguinte. Quando se está diante de duas possíveis opções, é útil deter-se primeiro em uma, como se tivesse que segui-la sem dúvida; permanecer em tal estado durante um ou mais dias; então avaliar as reações do coração frente a tal eleição: se dá paz, se harmoniza com o resto das próprias eleições, se algo em você o alenta nessa direção, ou, ao contrário, se o tema deixa um pouco de inquietude... Repetir o processo com a segunda hipótese. Tudo em um clima de oração, de abandono à vontade de Deus, de abertura ao Espírito Santo. Uma disposição habitual de fundo a realizar, em qualquer caso, a vontade de Deus, é a condição mais favorável para um bom discernimento. Jesus dizia: «meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou» (Jo 5, 30). O perigo, em algumas formas modernas de entender e praticar o discernimento, é acentuar até tal ponto os aspectos psicológicos, que se esquece que o agente primário de todo discernimento é o Espírito Santo. Há uma profunda razão teológica nisso. O Espírito Santo é, Ele mesmo, a vontade substancial de Deus, e quando entra em uma alma «se manifesta como a própria vontade de Deus para aquele em quem se encontra». O fruto concreto desta meditação poderia ser uma renovada decisão de confiar-se em tudo e para tudo à guia interior do Espírito Santo, como em uma espécie de «direção espiritual». Está escrito que «quando a nuvem se elevava de cima da morada, os israelitas levantavam o acampamento. Mas se a nuvem não se elevava, eles não levantavam o acampamento» (Ex 40, 36-37). Tampouco nós devemos empreender nada se não é o Espírito Santo – de quem a nuvem, segundo a tradição, era figura – quem nos move e sem tê-lo consultado antes de cada ação. Temos o exemplo mais luminoso disso na própria vida de Jesus. Jamais empreendeu nada sem o Espírito Santo. Com o Espírito Santo foi ao deserto; com o poder do Espírito Santo regressou e iniciou sua pregação; «no Espírito Santo» escolheu seus apóstolos (cf. Atos 1, 2); no Espírito orou e se entregou a si mesmo ao Pai (cf. Hb 9, 14). São Tomás fala desta condução interior do Espírito como de uma espécie de «instinto próprio dos justos»: «Como que na vida corporal o corpo não é movido mais que pela alma que o vivifica, assim na vida espiritual cada movimento nosso deveria provir do Espírito Santo». É assim como atua a «lei do Espírito»; é o que o Apóstolo chama de «deixar-se guiar pelo Espírito» (Gál 5, 18). Devemos abandonar-nos ao Espírito Santo como as cordas da harpa aos dedos de quem as toca. Como bons atores, ter o ouvido atento à voz do apontador escondido, para recitar fielmente nossa parte no cenário da vida. É mais fácil do que se pensa, porque nosso apontador nos fala dentro, ensina-nos todas as coisas e nos instrui em tudo. Basta às vezes um simples olhar interior, um movimento do coração, uma oração. De um santo bispo do século II, Meliton de Sardes, lê-se este belo elogio que desejo que pudesse se repetir sobre cada um de nós depois de morrer: «Em sua vida fez tudo movido pelo Espírito Santo».